
Cinco anos parecem pouco quando a gente olha para trás e lembra do ponto de partida. Mas, para quem viveu o começo, “Boiadeira” não é só uma música: é uma fotografia de uma época, de uma aposta corajosa e de um
time enxuto que decidiu acreditar numa menina de Sete Quedas (MS) que viralizou cantando em cima de um cavalo.
“O lançamento de ‘Boiadeira’ é o começo de tudo. É o primeiro lançamento da Ana Castela e, de certa forma, do início desse sonho chamado AgroPlay”, relembra Raphael Soares, hoje sócio-proprietário da AgroPlay. “Vale lembrar porque é muito gostoso revisitar. No meio da pandemia, tudo era incerto e, mesmo assim, a gente tinha vontade de construir”, completou.
A faísca veio de um vídeo simples e poderoso: Ana cantando “Vaqueiro Apaixonado” e chamando atenção pela autenticidade. Rodolfo Alessi compositor e hoje sócio-diretor da AgroPlay, viu algo ali que não dava para
ignorar e a conexão com a família ajudou o caminho a encurtar. “Eu conhecia a Michele e o Rodrigo desde a infância. Quando me falaram que a menina do vídeo era filha deles, eu pensei: ‘não acredito’”, conta Rodolfo. “Mandei mensagem, elogiei, e ficou na minha cabeça.”
A história dá a virada quando surge uma música escrita para outro artista, e recusada. Era “Boiadeira”.
“Eu, Gabriel Vitor, Diego Barão e Jota Lennon escrevemos. Eu mandei pra alguns artistas e ninguém gostou”, lembra Rodolfo. “Aí eu falei pra Ana: ‘pega o cavalo, vai na beira da cerca, coloca uma JBL… vou te mandar o playback. Grava em cima do cavalo’. Ela gravou, adorou e mandou um vídeo de internet mesmo. Quando subiu… começou a loucura.”
Do outro lado, a identidade visual também nasceu no improviso e na urgência da época. Vinícius Giuliano, o VG, foi o primeiro designer da artista e brinca que estava “desde o dia menos três”, antes até da música ser gravada.
“Eu fiz o PDF da apresentação pros pais, a logomarca, toda a criação visual. Era uma equipe bem enxuta: eu, o Albertoni, o Rapha… e no design era só eu”, conta. “A gente não tinha foto boa, era foto de celular, e sem IA. Tive que ‘inventar’ cenário, duplicar fundo, preencher imagem… e tudo na pandemia.”
Com “Boiadeira” lançada, o trabalho precisava ganhar o mundo e aí entra estratégia. Everton Albertoni, responsável pelo digital e pela articulação com plataformas, resume o sentimento com sinceridade:
“Passou rápido, mas passou no tempo que precisava ser construído. Ninguém esperava o que aconteceu.” Ele lembra que, enquanto o mercado estava concentrado em lives e cautela por falta de investimento, a equipe decidiu acelerar com o pouco que tinha. “A gente não tinha dinheiro. Mas com muito pouco, fez o que um grande faria. Madrugadas viradas, dois, três dias acordado… e hoje o resultado está aí”, lembra.
A resposta do público chegou como um sinal claro: não era só “viral de internet”. Era começo de carreira. Foi ali que a engrenagem começou a ganhar forma, incluindo rádio, shows e presença nacional. Para Fábio Borges, primeiro empresário do projeto, o movimento foi artesanal e direto ao ponto.
“Eu comecei a entrar em contato com todos os radialistas. Usei 10, 12 anos de portfólio. Fui mandando a música um por um, no WhatsApp e por e-mail. E a aceitação foi sensacional”, relembra. “Todo mundo que recebia a música falava um ponto positivo. A Ana tinha algo diferente.”
E quando foi que “virou a chave”? Tem quem marque o momento com shows que explodiram.
“A gente sentiu isso em Rondônia, em 2022. Foram quatro shows sensacionais. Depois Curitiba, casa lotada uma semana antes”, conta Fábio. “Ali juntou rádio, internet, um ótimo trabalho do escritório e, claro, a estrela da Ana.”
Tem também quem identifique a virada quando o palco grande confirmou o que o vídeo já anunciava.
“Teve um show em uma exposição grande, em Dourados. Foi a primeira vez que a gente viu ‘explodido’ de gente. Chegavam os vídeos, ela emocionada… e a gente pensou: ‘agora foi’”, lembra Albertoni.
Ele ainda destaca um marco definitivo de construção de artista: o DVD Boiadeira Internacional, gravado na Fespop, em Santa Terezinha de Itaipu. “Foi mágico. Estava frio, mas tinha mais de 70 mil pessoas, gente de fora do país. Ali mostrou a Ana artista pro mercado. Foi uma virada de chave”, avalia.
Cinco anos depois, “Boiadeira” não é só um hit com números gigantes. É um símbolo de origem. É a música que deu apelido, criou identidade e abriu caminho para a artista mais requisitada do país e para um ecossistema que
cresceu junto.
“Eu vejo a Ana como duas pessoas: Ana Castela e Ana Flávia. Quando sobe no palco, ela se transforma. Ela entrega 100%”, resume Fábio Borges. Raphael complementa que os projetos com a cantora seguem em ritmo acelerado. “Seguimos a energia da Ana com produções e novas ideias em desenvolvimento uma atrás da outra”, revela.
A verdade é simples: quando “Boiadeira” nasceu, ninguém tinha como prever o tamanho do que viria. Mas tinha algo que não se ensina e que o público reconhece de longe: carisma, verdade, trabalho e uma boa história bem contada. E essa história começou lá, em 26 de fevereiro de 2021, com um cavalo, uma JBL, um chapéu e uma música que mudou tudo.








